terça-feira, 15 de novembro de 2011

   Soneto da separação

De repente do riso fez-se o pranto

Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto.
De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez-se o drama.

De repente, não mais que de repente

Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente.

Fez-se do amigo próximo o distante

Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente.

Vinícius de Moraes
 
Para nós, belos momentos! As lágrimas estão chegando e o que faremos...?
Apenas chorar pelo vivido e o que virá!
Sentirei falta, na realidade sentiremos falta...

A razão por que a despedida nos dói tanto é que nossas almas estão ligadas.
 
 

A história da Rua B 45 - Parte II


 Não diferente das outras áreas do bairro, nesta rua houve casos de casas serem pontos de pico de drogas, suicídio, prostíbulo e assassinato. Porém, é interessante perceber que na memória prevalecem momentos de comunhão entre os moradores. Estes, são eventos como o São João com bandeiras espalhadas pela rua como decoração, onde as pessoas unem-se no evento e compartilham  fogueiras e comidas típicas. Ainda faz parte da rotina os jogos de futebol assistidos na rua com a televisão emprestada do vizinho, os jogos de futebol entre os meninos que sempre pára para a passagem de carros ou as brincadeiras de esconde-esconde entre crianças no período da noite.
As conversas na porta dos vizinhos com bancos e assentos construídos com cimento abaixo de arvores ainda acontecem, e a distribuição de pedaços de bolos  e doces feitos em casa fazem parte da convivência. O apelido antes pejorativo de “interior de Maceió”, talvez caiba aqui, pois o clima típico de interior com pessoas na porta até a hora a novela das 8h, o fato de “todo mundo conhecer todo mundo”, os lanches compartilhados nos faz ter um sentimento de resguardo de épocas antigas e pouco vividas em que muito se perdeu com a correria do dia-a-dia.
Tais atividades tem sido passada pelas gerações, se antes tínhamos marcas precisas de gerações como pais e filhos , hoje somos distribuídos entre bisavós, avós, pais, filhos e sobrinhos, a mistura entre idades está mais evidente e o número tem aumentado consideravelmente entre as pessoas da rua.
Com isso uma das mudanças que destacam-se no cenário referem-se as casas antes pequenas com muros de 1,50m, hoje temos muros altos, casas maiores e de primeiro andar, verdes, amarelas, brancas e apenas com tijolos, cada qual com sua cara. Pequenos comércios também se formaram entre bar, pequenas lojinhas de doces e sorvetes, como também, uma clínica de odontologia. As árvores quase não existem mais, porém as que prevalecem são rodeadas e disputadas pelas crianças que passam o dia subindo nos galhos e arrancando as folhas.
De fato desenvolvemos bastantes, é perceptível as mudanças econômicas que nos atingiram e como elas modificaram os hábitos. Não dormimos mais de porta  aberta e os muros não foram erguidos por questões estéticas. Nos acostumamos aos poucos com a presença da cavalarias da polícia, os seguranças particulares, apesar de tentarmos prevalecer com a vida que tínhamos a não muito tempo! Se tínhamos apenas uma pessoa com formação superior em nossa rua, hoje, somos dezesseis que terminaram seu ensino superior ou que está em andamento, sendo uma, com título de mestrado e uma com especialização em sua área de atuação.
  Dos 25 anos de existência deste bairro eu tenho 21 anos de participação de sua história e ele na minha. O contexto a qual estamos inseridos e aquilo que eles nos oferecem são importantes em nossas decisões, pois nossa história é guiada pelo caminho que escolhemos.  Temos crescido socialmente e economicamente e, evidentemente, tais mudanças trouxeram consequências em nossa história e no percurso que a história de nossa rua tem trilhado. Diante  das mudanças que temos percebido nestes últimos anos certamente  estas  foram guiadas pelo bem estar social e a meta de mudanças no estilo de vida dos moradores em busca de melhores condições de vidas explicitas nas lutas maciças por melhores escolas, um maior nível de instrução, cursos profissionalizantes, áreas de lazer, projetos sociais e incentivos comerciais com ampliação de empregos no próprio bairro.

A história da Rua B 45 - Parte I

A história de uma rua pode parecer algo mínimo, talvez até insípido perante um contexto global ! Mas, ao pesquisar e questionar sua constituição e heranças passadas percebermos que uma rua pode contar mil histórias. Logo, torna-se um quebra-cabeça em tamanho real em meios a contos, fatos e sonhos de lembranças antes esquecidas em baús.    
Mas o que falar da  “B 45” ? Quem vive, quem constrói e refaz sua história? Desde quando é um espaço de acontecimentos e mudanças seja estas econômicas, populacionais e sociais? E por que foi criada?  Diante de tantos questionamentos a primeira reflexão construída foi perceber que a história desta rua confunde-se com a história de seus moradores e bairro. Então, perante a necessidade de contextualização do meio coube buscar entender este espaço como uma área  particular de uma sequência linear mais complexa,  o bairro a qual faz parte. Logo a rua B 45 está situada no bairro do Benedito Bentes  e, como este originou-se, foi decisivo para a identificação desta rua.
O conjunto residencial Benedito Bentes em um caráter situacional foi construído em 1986 conhecido particularmente como o "fim de mundo" e “interior de Maceió” pela distância das áreas de comércio.  Este conjunto recebeu o nome em homenagem a  Benedito Geraldo do Vale Bentes que veio do  Amazonas com seus pais e irmão e, segundo a história, eles se “apaixonaram com a beleza das praias” e resolveram ficar no estado de  Alagoas.  Este casou-se e tornou-se , o maior proprietário de coqueiros de Alagoas  e “ajudou” junto a sua família a povoar o estado.
Porém, apesar da família Bentes ter se desenvolvido financeiramente, o bairro de sua homenagem não assemelhava-se em nada com as riquezas da família. Todas as casas eram populares e seus futuros moradores tinham que realizar suas inscrições na antiga COHAB (Companhia Habitacional) e apenas morariam nas casas  quem não tinha condições de pagar  aluguel ou comprar uma casa na cidade. Como evidência após o sorteio das casas seus moradores efetuavam o pagamento com o valor mensal de R$ 13,00 e depois de alguns anos todos que estavam com suas parcelas em dia foram isentos do pagamento total das residências.
Localização do bairro Benedito Bentes em Maceió


                                     
Fonte: Google
Aos poucos os moradores sorteados começaram  a tomar posse de suas casas e  residir no conjunto. As ruas começaram a torna-se povoadas e as histórias construídas  no bairro e particularmente das ruas começavam a surgir. Minha família foi uma das primeiras moradoras deste bairro em especial da Rua B 45. Como numeradas em 1986 as ruas não receberam nomes e prevalecem como de início.
A “B 45” possui 58 casas  e de seus 58 núcleos familiares 45 prevalecem em suas residências desde de o início do bairro , nas outras, novas famílias achegaram-se a comunidade . Em conversas com alguns moradores, estes fizeram recortes de eventos e situações cotidianas da rua. De fato muita coisa mudou. Apesar do alto índice de violência do bairro e este ter sido motivo de muitas famílias saírem do local , muitos moradores da rua dizem não ter tido a opção de escolher morar no Benedito Bentes , mas hoje estes prevalecem no local por escolha, por reconhecerem que fazem parte da evolução e crescimento do bairro e lutam por melhorias no local, pois se sentem pertencentes a este espaço.